“QUEM NÃO SE COMUNICA, SE TRUMBICA”: ESTA MÁXIMA DO VELHO GUERREIRO, É MISTER EM QUALQUER SOFLAGRANTE

“QUEM NÃO SE COMUNICA, SE TRUMBICA”: ESTA MÁXIMA DO VELHO GUERREIRO, É MISTER EM QUALQUER SOFLAGRANTE

Acredito que devo ter que explicar melhor o título deste artigo…

 

Vamos a uma rápida pesquisa no dicionário (alguém ainda tem em casa um desses?):

  • Trumbicar: Não se dar bem, fracassar ou malograr.
  • Máxima: Ditado popular, provérbio.
  • Mister: Fundamental, necessário, imprescindível.
  • Soflagrante: Circunstância, momento.

 

Ah! E o Velho Guerreiro a quem me refiro é nosso saudoso Abelardo Barbosa, o Chacrinha (se acaso você não conhecer, veja na Wikipédia).

Não é por nenhum eruditismo que utilizei estas palavras. É para chamar à reflexão o que tenho visto, com cada vez mais intensidade, em nossa comunicação verbal e escrita: a perda de vocabulário que percebemos, principalmente, nas novas gerações.

O fato que estou a narrar não é recente. Já em meados da década passada, foi um dos motivos que me levou a declinar dos convites para ser professor orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) na Universidade em que atuava. Infelizmente, a crescente dificuldade de entender o que os alunos queriam expressar através dos seus textos, fazia com que o tempo destinado à orientação fosse mais empregado para correções gramaticais do que para indicar um caminho de pesquisa, referências ou discutir resultados.

E, recentemente convidado para participar de uma banca de Mestrado, fiquei abismado como o problema já se espalhou para outros níveis acadêmicos… Fico aqui imaginado: se neste nível de formação este problema é tão grave, o que se dá com a grande maioria da população que não tem esta qualificação? E como isso se replica nos ambientes corporativos? Me parece assustador….

Não por acaso, me deparei há pouco com uma matéria do IGN Brasil (um site de notícias da cultura geek e de videogames) com o título “Geração Z está perdendo uma habilidade que temos há 5,5 mil anos: 40% estão perdendo a fluência na comunicação”. Se eu fosse o Chacrinha, diria: “trumbicou”! Vou transcrever aqui a matéria, cujas fontes tive o cuidado de verificar:

 

“As inovações digitais estão fazendo com que a Geração Z abandone não apenas a capacidade de escrever, mas também o conhecimento básico para se expressar com maior clareza. A dúvida se faz parte da transformação que a sociedade vive ou se é um problema da Geração Z que deve ser enfrentado preocupa os especialistas. O fato é que a Gen Z está perdendo o que a humanidade veio desenvolvendo há 5.500 anos.De acordo com diversos estudos e depoimentos de professores de diversas universidades coletados pelo jornal turco Türkiye Today, os jovens da Geração Z ficaram tão acostumados a usar teclados que acabaram “entrando em choque” ao saltar da escrita digital para a tradicional. Como qualquer habilidade que é lentamente perdida pelo não uso, os alunos agora demonstram uma perda considerável na caligrafia, muitas vezes torta na página e exibindo uma letra ilegível.

Um estudo realizado na Universidade de Stavanger, na Noruega, mostrou que em apenas um ano focando exclusivamente na escrita digital, 40% dos alunos perderam fluência na escrita manual. Porém, os responsáveis pelo estudo garantem que ter uma “caligrafia ruim” ou ficar mais cansado do que o necessário ao escrever no papel não é o pior que pode acontecer por conta da digitalização.

Motivados pelo uso das redes sociais como meio de comunicação, os alunos muitas vezes evitam frases longas ou não conseguem construir parágrafos significativos. A Gen Z não só tem mais dificuldade em escrever e se comunicar de forma eficaz, mas independentemente de fazê-lo manualmente ou com teclado, não consegue criar parágrafos com frases independentes, o que torna mais caótico e difícil a tentativa de compreensão de seus textos.

A boa notícia é que a capacidade de síntese para tentar explicar qualquer conceito em menos de 10 palavras melhorou significativamente, mas a longo prazo torna o aprofundamento em tópicos mais complexos especialmente difícil para eles. Entre a perda de certas normas ortográficas e a capacidade de estruturar corretamente o que pretendem transmitir, a preocupação com o caminho que a escrita tomará à medida que a tecnologia continua a crescer é, cada vez mais, uma realidade tangível.

 

Trazendo um pouco à luz da neurociência, meu foco de atuação, há estudos que indicam que escrever no papel ativa áreas do cérebro ligadas à memória e ao pensamento estruturado. A escrita não é apenas um meio de comunicação, mas também uma forma de organizar o pensamento. A incapacidade de estruturar textos longos pode refletir em dificuldades para articular argumentos e se aprofundar em temas complexos. Isso é um fato!

 

E o que fazer então?

Mais do que apenas incentivar o retorno da escrita manual, que poderia ser válido em atividades escolares e acadêmicas, vejo que o mais importante é promover o desenvolvimento da comunicação estruturada. Incentivar a produção de textos mais longos, não só em ambientes acadêmicos, mas também profissionais é fundamental. Também é necessário estimular a leitura de textos bem escritos, que sirvam de modelo para a escrita estruturada, o que você encontra naquele “velho e bom livro”, não nos posts e em aplicativos de mensagens instantâneas.

Sabemos que no ambiente corporativo, a comunicação clara e eficaz é essencial para produtividade, alinhamento estratégico e cultura organizacional. Se a Geração Z (e até outras gerações) está enfrentando dificuldades na escrita e na estruturação de ideias, as empresas precisam agir para eliminar ruídos e garantir que as mensagens sejam bem compreendidas.

Se me permitem, posso dar algumas sugestões para melhorar a comunicação no ambiente corporativo:

 

Criar um padrão de comunicação interna

O objetivo é reduzir a ambiguidade e definir um modelo de escrita clara e objetiva. Para isso, é possível criar um guia de comunicação com diretrizes sobre tom, formalidade e estrutura de mensagens. Além disso, podemos treinar os times para evitarem mensagens excessivamente curtas ou vagas em canais como WhatsApp. Isso é válido tanto para a comunicação interna como para a comunicação com o mercado.

 

Treinamentos de escrita corporativa

Se necessário, precisamos desenvolver habilidades para redigir e-mails, relatórios e apresentações mais eficazes. Para isso, oferecer workshops práticos sobre escrita clara e persuasiva, focando na comunicação empresarial, pode ser um caminho. Também é possível criar um programa de mentoria, onde colaboradores mais experientes revisem e orientem os mais novos.

 

Criar uma cultura de feedback na comunicação

Isso para permitir ajustes constantes e melhorar a clareza das mensagens. É necessário estimular gestores a dar feedback sobre e-mails e relatórios mal escritos com sugestões de melhoria. Pode-se implementar um formato de revisão colaborativa, onde um colega revisa a comunicação de outro antes de ser enviada.

 

Reforçar a importância da escrita estruturada em reuniões e projetos

Aqui, o objetivo é evitar decisões mal documentadas e reduzir o retrabalho. Para isso, exigir resumos escritos claros após reuniões, ao invés de apenas áudios ou anotações soltas é um bom caminho. Criar um padrão para briefings e relatórios, forçando uma estrutura lógica na comunicação e usar técnicas para ajudar a organizar ideias também são bem interessantes.

 

Treinar adequadamente a IA

Ah! Se você está pensando que a Inteligência Artificial está aí para resolver todos os seus problemas, lamento dizer que isso é um ledo engano… As ferramentas de IA também precisam ser alimentadas de textos estruturados para dar respostas adequadas ou expandir um texto com base nas suas diretrizes. Até ela precisa que os prompts sejam minimamente bem escritos para produzir um bom resultado! Se você não souber pedir, ela não vai saber o que entregar…

A questão não é simplesmente “culpar” a Geração Z, mas sim entender que o mundo digital exige novas formas de adaptação. Podemos equilibrar a eficiência das novas tecnologias com a importância de manter habilidades que sempre foram essenciais para a humanidade.

Se precisar de ajuda, pode me chamar!!!

 

Ah! Se você quiser conferir a matéria e ter acesso aos links, segue a fonte: 

https://br.ign.com/tech/134273/news/geracao-z-esta-perdendo-uma-habilidade-que-temos-ha-55-mil-anos-40-estao-perdendo-a-fluencia-na-comu