Conceito central em diversas tradições filosóficas e espirituais, a impermanência é um princípio que rege nossas vidas e organizações.
A palavra “impermanência” refere-se à ideia de que todas as coisas são transitórias, ou seja, nada é fixo ou duradouro. Tudo está em constante mudança e evolução, seja na natureza, nas relações humanas, ou mesmo nas instituições e negócios.
Em um sentido mais filosófico e psicológico, a impermanência nos lembra que as circunstâncias de nossa vida estão sempre mudando, o que pode ser visto como um convite à aceitação das dificuldades e uma valorização dos momentos de felicidade, pois sabemos que nada perdura para sempre.
Antes de abordar a aplicação do conceito, vamos buscar algumas referências, pois o tema é, de muito tempo, percebido por filósofos e pensadores. Podemos começar essa viagem, por volta do século V a.C.
O Budismo, surgido na Índia a partir dos ensinamentos de Siddhartha Gautama, o Buda, enfatiza a impermanência como uma das formas de entender a natureza. Para Buda, o apego às coisas transitórias é a raiz do sofrimento, pois tudo o que é material e até mesmo os estados mentais estão sujeitos à mudança. Na mesma época, na Grécia, Heráclito de Éfeso (aproximadamente 500 a 450 a.C.) já dizia que “tudo flui” (panta rhei), sublinhando a ideia de que a mudança é a única constante no universo. Seu pensamento reflete a impermanência das coisas e a inevitabilidade das transformações.
Dentre os filósofos modernos, Jean-Paul Sartre (1905-1980), considerado um dos maiores pensadores do existencialismo, lidou com a impermanência do ser humano, refletindo sobre a finitude da vida e a constante mudança da identidade, ao mesmo tempo que fazia a ligação com a liberdade e a responsabilidade de criar significado em um mundo fluido e em constante mutação. Também o filósofo e escritor britânico-americano, Alan Watts (1915-1973) abordou a impermanência em seus escritos, sugerindo que as pessoas, muitas vezes, buscam estabilidade em um mundo onde a única certeza é a mudança. Ele comparou a vida a uma dança, onde cada passo é transitório e precioso justamente por ser momentâneo.
Nos tempos atuais, há diversos autores, filósofos e pensadores que têm abordado a ideia de impermanência, tanto em contextos pessoais quanto em suas reflexões sobre a sociedade e negócios. Para não me estender demais nessa parte do artigo, vou registrar dois autores cujas obras considero leitura obrigatória!
O primeiro deles é Nassim Nicholas Taleb, autor de “Iludidos pelo acaso” (2004), “A lógica do cisne negro” (2007), “Antifrágil” (2012) e “Arriscando a própria pele” (2018) – só para citar os que tenho em minha biblioteca. Em seu livro “Antifrágil”, Taleb aborda a ideia de que algumas coisas se beneficiam do caos e da mudança, ou seja, da impermanência. Ele desafia a ideia de que a estabilidade é desejável, argumentando que, em um mundo incerto e em constante mudança, precisamos adotar uma abordagem “antifrágil”, que se fortalece com a imprevisibilidade e a volatilidade.
O outro que não posso deixar de citar, é Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens” (2001), “Homo Deus” (2015) e o recém lançado “Nexus” (2024), que, nas suas diversas obras, explora como a história humana é marcada pela impermanência – desde a evolução das nossas crenças até as mudanças tecnológicas e sociais. Ele propõe que, ao entendermos melhor a transitoriedade da nossa espécie e do planeta, podemos tomar decisões mais sábias e sustentáveis para o futuro.
Tem aquele chiste que diz que “Tudo na vida é passageiro, menos cobrador e motorista”. De uma forma divertida, pode ser considerado uma definição de impermanência!
No nosso cotidiano, a impermanência pode ser observada nas mudanças constantes das nossas experiências e relações. Por exemplo, pessoas entram e saem de nossas vidas, e as dinâmicas dos nossos relacionamentos mudam ao longo do tempo. Basta ver como coisas que eram importantes no passado hoje podem não ter mais nenhuma importância. Projetos e objetivos profissionais também têm sua própria evolução, com momentos de estabilidade seguidos por mudanças inesperadas.
Não só o passar do tempo e o nosso envelhecimento natural são marcadores das mudanças em nosso contexto, mas diversos aspectos do nosso entorno – o que poderíamos chamar de ecossistemas pessoais – nos chamam para essa permanente transitoriedade de tudo. Nosso presente é um momento único entre um passado que não representa mais o mundo como é hoje e um futuro mais complexo do que podemos prever.
Como não poderia deixar de ser, a impermanência está profundamente ligada ao mundo dos negócios. A mudança é um elemento constante no cenário corporativo, refletida tanto em transformações externas (como a tecnologia, mercados e regulamentos) quanto internas (como as estratégias e culturas organizacionais).
Neste sentido vale destacar alguns pontos que refletem esta impermanência nos ambientes de negócios:
A impermanência, quando entendida e aceita, pode ser libertadora. No contexto dos negócios, ela oferece um lembrete de que a rigidez e a resistência à mudança podem ser prejudiciais, enquanto a flexibilidade e a capacidade de adaptação são essenciais para a sobrevivência e o crescimento. Em nível pessoal, a aceitação da impermanência pode promover uma vida mais plena, para que passamos a valorizar o presente e a aprender a lidar com as inevitáveis transições da vida.
Esses conceitos têm impacto profundo, não apenas na maneira como lidamos com as nossas vidas pessoais e profissionais, mas também como desenhamos modelos de negócios. Afinal, a única certeza é que tudo está em constante evolução.
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